09 outubro 2007

Mensagem 046 - A Lata

A Lata


Luciano Menezes 09/out/2007


A lembrança
de criança
a vingança
a esperança
as ancas
que desviaram
o pensamento
a libido
o gosto
o tesão
a garra
a farra
na lata
na mão.

08 outubro 2007

Mensagem 045 - O Desejo

O Desejo


Luciano Menezes 15/setembro/2007



Eu quero ser seu pesadelo não deixar dormir

eu quero ser a sua insônia lhe incomodar

eu quero mesmo é lhe deixar bem tonta

sem saber porque, como é, e fazer sem pensar

o que der e vier.


Eu quero ser aquele frio que lhe invade à noite

e não existe cobertor pra lhe acomodar.

eu quero ser aquele medo, seu grande psyché,

eu quero mesmo é lhe invadir, é lhe possuir,

é lhe deixar sem espaço e me perder também.


Eu quero mesmo é a loucura que se entronou

quando eu senti o seu vibrar,

seu pulsar, seu sair, seu fugir,

sem dizer que se foi pra ficar.


Eu quero o espaço que perdi, sem me preocupar,

que deixei de usurpar, de ocupar, sem culpar,

sendo livre e sem nada perder

seja um momento de paz, de prazer

de entrega total até quando puder.

20 julho 2007

Mensagem 043 - Quem Disse Que a Alma Não Existe

Quem Disse Que a Alma Não Existe

Luciano Menezes

E a noite chegava mansamente.
Era a única vez em que não escrevia pra voce.
Os dedos... Ah!
Os dedos não conseguiam acompanhar o pensamento.
A mente só andava em círculos:
sempre e sempre.

Chovia e o barulho era ensurdecedor.
Agora, nada mais tinha nenhum significado.
A coberta não impedia o frio.
A janela fechada não detinha a água.
E os papéis...
Os papéis no chão - viravam barcos a deslizar,
num riacho sem fim, que encharcava a sala.
Era demais, era muita água...
e de onde vinha tudo isso?
E na vitrola o disco rodava...
rodava...

e a mente só agora entendia a Ana Carolina:
“... a lágrima não é só de quem chora ...”

E a água jorrava,

descia pelas escadas,
escorria pelas paredes,
mas os olhos...
os olhos ardiam...
pois estavam secos.

E a água não parava,
cada vez mais volumosa,
insinuante,
escorrendo,
encharcando tudo,
levando tudo embora,
arrastando tudo que encontrava.

... e eu ali parado...

olhando...
e vendo a minha alma indo embora.

10 julho 2007

Mensagem 042 - Vida Inútil

Vida Inútil

Luciano Menezes


Vocês que só viajam na internet
não sabem como está o tempo fora
as nuvens que escurecem nossa terra
são feitas de traçante que devora
e acerta sem querer muitos incautos
que vivem apesar de não poder
que passam pela vida sem destino
e querem muito muito aparecer
e aparecem sempre nessa hora
depois que eles acertam seus miolos
jornais se aproveitam da notícia
e vendem muito mais p'ros pobres tolos
que mal se alimentam e sem fetiche
se arriscam a viver sua procela
vivendo em uma terra de vielas.

O sonho não faz parte da sua vida
de quem muito (só)corre ou pensa nela
e a vida que se leva na favela
não sei se é vida ou risco de morte
e a sorte de quem tem pouca guarida
se mostra quando batem em sua porta
se fecha se parece com hospício
se abre levam sua vida embora
sem ter ainda o tempo vivido.

Por isso sua vida nada vale
sorrisos batucadas cantorias
se misturam aos sons de caveirões
que berram a noite toda em seus ouvidos
vocês só são bandidos ou ladrões
e vou chupar sua alma infanticida
pois já não vale nada teime não.

Querem organizar grupos suicidas
tentar fazer sua festa apoteótica
com forró samba funk e tudo mais
vou acabar com essa sua farra
pois festa você já teve demais
dançou numa avenida colorida
apareceu bem na televisão
mostrada para mundo como farra
como um exemplo de organização.

E quando for chegada a sua hora
você se despe da sua casaca
e ganha um bom terno de madeira
pancadas choros bombas é brincadeira
assim 'ces se divertem muito mais.

10 dezembro 2006

Mensagem 041 - A Marcha do Imperador (Ode a Vida)


A Marcha do Imperador (Ode a Vida)

Luciano Menezes -

Quem detém o poder?
Pergunta sem resposta.
Afeto sem sentimento - “ilusão à toa.”
A natureza imita a vida
e o fingimento parece realidade.
Fotos...
instântaneos...
parece amostra de filme.
O branco domina a paisagem
e a noite nunca chega.
O frio congela até a alma
e o calor do inferno está distante.

Quem agüenta?
Pergunta sem resposta.
Pé ante pé avança em direção ao vazio
Lá onde o vento – venta.
Lá onde a união é que determina a sobrevivência
Não é humano
É apenas vida
É apenas solidariedade
e a vida imita a arte.
Rasteja...
Se contorce...
Se encosta...
Se roça...
E anoitece.

Quem une?
Não há pensamento
só atos
curtos...
longos...
rápidos...
planejados...
inconseqüentes...
Carinhos...
Toques...
Puro prazer,
para o prazer,
pra se manter,
e sobreviver
e ante tudo se procria.

10 julho 2006

Mensagem 040 - Tem Um Amor

Tem um amor

Luciano Menezes

tem um amor que chora
outro que sonha
tem um amor que geme
outro que ganha
tem um amor que acarinha
outro que arranha
tem um amor com fome
outro que come
tem um amor que edifica
outro destrói
tem um amor que implanta
outro corrói
tem um amor que fica
outro que vai
tem um amor que chega
outro espera
tem um amor que cresce
outro que acaba
tem um amor que adormece
outro que acorda
tem um amor que canta
outro que grita
tem um amor que acalma
outro que agita
tem um amor que é amor
outro que é ódio

07 janeiro 2006

Mensagem 039 - Ler e Escrever

Ler e Escrever

Luciano Menezes

Escrever é como a vida
as letras são enzimas
as palavras o sangue
e a leitura o nascimento.
Loucura é compreender a escrita
sonhar é interpretar o sentido
andar é circular nas veias
abertas pelo sentimento
amar é morrer aos poucos
odiar é fechar por fim os olhos.

Mensagem 038 - Viagem

Viagem

Luciano Menezes

Igual ao mercúrio
uni as gotas
rolei na face
me precipitei no espaço
cai em uma pétala
e não senti o baque
desci pelo caule
conheci raízes
circulei nos espaços vazios
da terra
me juntei a um rio
subterrâneo
saí por uma rocha e
o vento me espargiu no ar
Evaporei
Me tornei nuvem
Vaguei pelos céus
um tremendo estrondo
um relâmpago
me mandou de volta
pinguei numa cabeça quente
penetrei nos poros
cheguei ao cérebro
estou de volta
ouvindo o pulsar da vida
e nem sei por que voltei.

Mensagem 037 - Resto

Resto

Luciano Menezes

Chovendo nessa vida
toda eu me molhei
Igual lagoa morta
por um resto de viver.

28 dezembro 2005

Mensagem 036 - Basta! NÃO.

Basta! NÃO.

Não basta nascer, sobreviver, crescer, correr.
Não basta fumar, cheirar, beber ou enloquecer.
Não basta falar, gritar, querer, pensar e ter.

Tem que se juntar, se organizar, até construir,
a nova história, que faça apenas gente se unir.
Renovar o passado e mostrar que pode coexistir.
Uma vida humana, sem gana, receio e não iludir.

Mensagem 035 - Natal 2005

NATAL 2005

Luciano Menezes

NATAL, ceia, ajuntamento.
por que?
pergunte e ouvirá as respostas:
- é dia de dar presentes.
- hora de juntar os amigos.
- o momento de abraçar todos.
- o dia da confraternização universal.
Mas nesse dia
nem para todos é o NATAL.
Perguntem:
ao judeu
ao muçulmano
ao budista
ao sintoísta
ao comunista
perguntem ao capitalista
que se aproveitando da data transformou-a
- no dia mundial do consumismo.
Da minha parte continuo festejando
o nascimento de Jesus Cristo,
por isso tem a Missa do Galo,
tem São Nicolau,
tem o cristianismo,
tem a fé católica,
que a pratico como eu acredito
sem fazer mal a ninguém
sem obrigações de ir a missa
sem me confessar com o padre
rezando quando tenho vontade
sem pagar dízimo
sem casamento
só com ajuntamento
aceitando o outro
sem cobrança
sem saudade
sem herança
sem mudança
sem lei dos homens
sem a lei dos bichos
só com o desejo
e o querer perene
- enquanto dure.

Mensagem 034 - Antes do final

Antes do final

Luciano Menezes

De novo
ele se apresenta
sem muita diferença,
apenas mais um
que se vai
ou fica,
p'ra quem gostou.

Quem sabe o sonho
de quem sonhou.

Quem viveu o sonho
não sonha mais.

Quem é lembrança
não existe.

Mensagem 033 - Enfim só

Enfim só

Luciano Menezes

enfim só
sem sonhos
sem eperanças
sem saudades
só lembranças

enfim só
sem amargura
sem explicações
sem tortura
só lamentações

enfim só
sem fome
sem desejo
sem coerência
só reclamações

enfim só
sem libido
sem atitude
sem sentido
só motivação.

Mensagem 032 - Sem Presente

Sem presente

Luciano Menezes

you've got a friend.
you've got a mail.
e eu não quero nada
não entendo nada
e não escrevo em inglês.
gosto do som, das pronúncias,
dos ditongos, dos hiatos,
de fato nem lembro mais
os pronomes que aprendi.
gosto do som, das palavras,
das onomatopéias,
do grunhido do mato,
do cheiro das folhas,
do medo da escuridão.
gosto do som do silêncio
e esse ninguém quebra não.
gosto do gotejar da mente
que cria o sonho
e que revela o filme
do inconsciente.
gosto de pronunciar fonemas
seguindo uma ordem
que não tem definição.
gosto de grafar imagens
que as palavras,
não revelarão.
gosto de desenhar,
sem dar um traço com a mão.
gosto de olhar pra trás
e não ter nenhuma visão.

28 julho 2005

Mensagem 031 - Quero

QUERO 
Luciano Menezes

Quero ser ridículo e ficar perdido,
sem rumo, além da vida terrena.
Quero que o pó
que há mim calcificado se esparja.
Quero mais,
mentir,
sentir na vida o canto da falácia,
o desejo irrefreável,
a tesão incontida.
Não quero cânticos na minha morte,
não quero excelsas barrocas,
gregorianas.
quero sentir o uivo gutural,
o cheiro da pele no contato carnal.
E se um dia o sonho me faltar
eu quero a vida de volta.
Todas as tristezas,
as verdades,
alvoradas que me garantam
um entardecer lúgubre.
Por fim,
um amanhecer calmo como a morte
e a luz difusa do sol
saindo da escuridão da noite.

Mensagem 030 - Paisagem Inútil

Paisagem Inútil

Luciano Menezes

Ontem vi um quadro
que estava vivo.
Lá estava o lixo,
lá estava o mato,
lá se via o rato,
e também o homem.
Cena cruel,
desigual,
lutavam juntos
com igual denodo,
nos escombros,
buscavam todos:
vencer a fome.

19 março 2005

Mensagem 029 - Viver

Viver

Luciano Menezes

A água não lava a mágoa
O calor da lágrima sulca o rosto
A mão enruga de limpar face
e o tempo de esquecer acaba a vida.

02 janeiro 2005

Mensagem 028 - A tsunami que me levou

A tsunami que me levou

Luciano Menezes 31/dez/2005

A tsunami que passou por mim
não fez estragos, nem se repetiu.
Foi longa e ainda hoje está em refluxo.
Já não dá pra recolher amigos,
avançou além de onde havia terra.
Não encontrou lagoas, rios, nem poços artesianos.
Se espraiou de tal maneira,
que não trouxe escombros,
nem rastros,
tragou a todos.
Não sou náufrago, ainda surfo
na crista dessa avassaladora onda.
O me fez pranchar, foi o prazer
de entrar num tubo
e no brilho do sol restava a esperança.
De cima da onda,
mais longa que a Pororoca,
continuo em refluxo.
Nào quero entrar no Guiness Book,
não quero medir a distância da surfada.
Sei que quando parar
estarei em água calma,
mas com certeza
não será água parada

25 dezembro 2004

Mensagem 027 - Folha

Folha

Luciano Menezes

Quem sabe eu não acredito mais em nada,
bruxa, gnomo, sapo ou fada.
Nasci folha por opção,
gosto de sentir o vento
me balançar, me percorrer.
Meu desejo é correr chão.
Eu não nasci com raízes
e o cordão que me prende
de voar me impede,
mas tenho movimento
balanço, deixo rastros, faço até sombra.
Com muitos irmãos, pimos, parentes
alguns são flores e outros espinhos
que estão plantados nos caminhos.
Nos sonhos plano alto e quando caio
a realidade me mostra seco,
endurecido, quebradiço,
sem um destino certo:
a lata de lixo, uma chama queimando.
ou enfim o desejo sonhado.
Correr pelo chão ou sendo impedido
pois o vento tão baixo
não tem força não.
Mas quando venta forte
com rodopios eu subo alegre,
me sinto vadio, sou dono de mim.
Aí eu acordo me vejo tão verde
e sei que ainda é cedo pra me desprender
não depende de mim
ser folha é assim.